Marcando a vida das pessoas

Vez ou outra, deparo-me com o seguinte pensamento: "As pessoas podem se esquecer do que você disse, do que você fez, mas nunca se esquecerão da forma como você as tratou". Meditando nisto pude perceber o quanto este conceito é verdadeiro. Afinal, estamos constantemente deixando alguma marca na vida das pessoas. Sabemos que alguns são grosseiros, impacientes, falsos, mentirosos, cínicos, hipócritas, mas outros são amigáveis, simpáticos, alegres, carinhosos e incentivadores. Alguns são motivadores de confusão, brigas e decepções, mas outros são fontes de paz, fé e amor. Alguns não acrescentam nada de bom nos relacionamentos interpessoais, mas outros quando se aproximam enriquecem o nosso tempo, iluminam as nossas mentes, trazem cura para as feridas da alma e enchem o nosso coração de esperança. É, o que importa mesmo, o que faz a diferença em um ambiente, o que transforma uma convivência, enfim, o que toca de fato o coração das pessoas não são as nossas palavras, mas o modo como as tratamos. Sendo assim, desejo compartilhar alguns procedimentos básicos que podem nos ajudar a tratar a cada pessoa ao nosso derredor com dignidade e no mesmo amor de Cristo Jesus.

1. Sejamos autênticos. As pessoas não são bobas, em determinado momento elas perceberão toda atitude cínica, falsa e hipócrita. Tratemos as pessoas com honestidade, pureza e retidão. Isso não significa falar o que pensa, desrespeitando, humilhando e pisando sobre os sentimentos delas. Ser autêntico é não querer passar algo que não existe, algo que não se sente, algo que não se acredita de fato. Diz a sabedoria popular que quem fala o que quer ouve o que não quer. Então, sejamos verdadeiros, mas sempre com temperança, mansidão e muito amor no coração. "Porque nada podemos contra a verdade, senão pela verdade" (II Coríntios 13:8).

2. Sejamos cordiais. Receber uma pessoa com alegria, receptividade, simpatia e boa vontade é ser cordial. Lamentavelmente alguns ainda não aprenderam a arte de atender e receber as pessoas. Ainda há muito despeito, arrogância e indiferença. Porém, quem exerce cordialidade aprendeu a verdadeira arte de se relacionar com as pessoas. Como é gostoso chegar a uma casa ou igreja e ser recebido com hospitalidade, carinho e respeito. Como é bom sermos recebidos por pessoas cordiais. O segredo para isso? "cada um considere os outros superiores a si mesmo" (Filipenses 2:3).

 3. Sejamos positivos. Aproveitemos o momento de uma companhia amiga para falar de coisas proveitosas e, não, para ficar criticando ou falando mal de alguém nem mesmo para ficar reclamando da vida. Pessoas negativas, pessoas que só enxergam defeitos nos outros, pessoas que não sabem valorizar e reconhecer o que é bom nos outros, acabam afastando de si mesmas as melhores amizades. O mundo está cheio de exemplos de pessoas talentosas, mas que estão sozinhas, abandonadas e até rejeitadas por afastarem de si as melhores companhias com suas palavras e atitudes negativas. Uma coisa é compartilhar alguns problemas com amigos que poderão nos oferecer alguma ajuda, algum conselho ou palavra de sabedoria, outra coisa é ser o próprio problema por ser uma pessoa negativa, uma pessoa desconstrutiva e amarga. "Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem" (Hebreus 12:15).

4. Sejamos alegres. Não significa necessariamente ser palhaço ou engraçado. Tem gente que fica rindo quase  o tempo todo, brinca com quase tudo, está sempre disposta a contar uma piada, mas na verdade é uma pessoa triste e incrédula, uma pessoa que se esconde atrás das brincadeiras e anedotas, uma pessoa que usa a fachada da gargalhada para ocultar as suas próprias deficiências. Ser uma pessoa alegre é um estado de espírito que expressa paz, serenidade e entusiasmo com a vida. Ser uma pessoa alegre não é apenas sorrir com os lábios, mas acima de tudo sorrir com o coração. "A esperança dos justos é alegria, mas a expectação dos perversos perecerá" (Provérbios 10:28). "O coração alegre aformoseia o rosto, mas pela dor do coração o espírito se abate" (Provérbios 15:13).

5. Sejamos servos. Não é aquele que ordena ou comanda, que fala alto e é grosseiro, que consegue fazer a diferença na vida das pessoas. As pessoas são tocadas na alma quando estão diante de alguém que sabe humildemente ser servo. Os melhores líderes são servos. Os melhores pastores são servos. Os melhores cônjuges são servos. Os melhores filhos são servos. Os melhores empregados são servos. E as melhores ovelhas são servas. Jesus fez a diferença porquanto Ele foi servo. Aquele que não gosta de servir é um oportunista, um mercenário que deseja está acima de todos. Logo, "qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos. Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos" (Marcos 10:44,45).

6. Sejamos "ouvidos". Em qualquer diálogo não basta apenas falar, é preciso também saber ouvir. De outro modo não será diálogo, apenas um monólogo. Mas quantas vezes estamos tão ansiosos em externar os nossos pensamentos, em compartilhar as nossas experiências e de lamentar os nossos fracassos e tristezas que não temos tempo para ouvir os demais. Apenas saber falar e não saber ouvir é egoísmo, petulância e até mesmo imprudência. Por isso se diz: "você tem uma boca e dois ouvidos exatamente para falar menos e ouvir mais". "Portanto, meus amados irmãos, todo o homem seja pronto para ouvir, tardio para falar" (Tiago 1:19).

7. Sejamos misericordiosos. Ninguém pode acertar sempre. É impossível que alguém nunca tropece em alguma coisa. Quando eu e você viermos a falhar, desejaremos ser acolhidos com graça e misericórdia. Portanto, demonstremos graça e misericórdia a quem precisa. Não estou falando em termos de aceitação do erro, do pecado e da iniquidade, mas, sim, em estendermos as mãos para quem precisa, em abrirmos os braços para quem deseja recomeçar. Pela misericórdia do Senhor não somos consumidos. A Sua misericórdia se renova a cada dia. A Sua misericórdia está sempre nos dando a chance de um novo recomeço. Assim, estendamos a Sua misericórdia a quem precisa através de nossas vidas. "Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo" (Efésios 4:32).

Outros procedimentos ainda poderiam ser pontuados. No entanto, os que foram destacados aqui são básicos. Se quisermos marcar a vida das pessoas de modo certo, compartilhando graça, renovando a comunhão e impactando a vida das pessoas, o que aqui está sendo lembrado é um excelente começo. Então vamos considerar mais o modo como estamos tratando o nosso próximo. Isso é importante. Somos desafiados por Jesus com um precioso mandamento: "O meu mandamento é este: Que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei" (João 15:12). "Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis" (João 13:34). No amor de Cristo podemos ser verdadeiros, cordiais, alegres, servidores, ouvintes e misericordiosos. Certamente, exercitando estes valores poderemos ter excelentes atitudes que as pessoas jamais esquecerão. Que as pessoas até se esqueçam do que dizemos, do que escrevemos ou do que fazemos, mas que elas possam sentir e serem marcadas com dignidade e honra pela maneira cristã, bíblica e evangélica como as tratamos. E, assim, teremos famílias mais fortes, igrejas mais saudáveis e uma sociedade mais justa. Hum, ao ler este texto não fique apenas na expectativa da mudança e transformação dos outros. Esta mensagem é para cada um de nós. A propósito, que a mudança comece em mim e em você.

Pr. Adriano Xavier Machado

O Mundo das Coisas e o Mundo Humano

Em Campo Grande, RJ, há um Regimento de Polícia Montada que tem o seguinte lema: "Nada é mais importante do que a importância de cada um". Em uma sociedade materialista, onde as pessoas são ignoradas e as coisas valorizadas, penso que este lema merece muito da nossa atenção. Será que temos de fato à luz do evangelho aprendido a reconhecer o valor das pessoas? Ou será que estamos escravizados pela cultura do "mundo das coisas"?

Karl Marx acreditava que a "desvalorização do mundo humano aumenta em proporção direta com a valorização do mundo das coisas". Quando Jesus, por exemplo, curava algumas pessoas em um dia de sábado, Ele era criticado e perseguido, pois a guarda do sábado na cultura judaica tinha mais importância do que o bem que era praticado a favor de um necessitado ou enfermo. Assim, podemos constatar que a valorização exacerbada do mundo das coisas demonstra mesmo a desvalorização do mundo humano. O que resulta em mais violência, competição, alienação, antipatia, traição, cinismo, hipocrisias, mentiras, enfim, descompromisso com as pessoas.

No "mundo das coisas" os valores ficam invertidos: as coisas são mais importantes que as pessoas. As coisas são amadas e as pessoas usadas. As coisas são apreciadas e as pessoas ignoradas. Além da questão do sábado, Jesus esteve diante de outra situação que evidenciava essa inversão, pelo que fez a seguinte advertência: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que dizimais a hortelã, o endro e o cominho, e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer estas coisas, e não omitir aquelas".

Para Jesus o "mundo humano" tem muito mais valor do que o "mundo das coisas". Para Ele uma só alma vale muito mais que o mundo inteiro. Foi por isso que Ele se doou completa e inteiramente por nós, a ponto de as raposas terem os seus covis e os pássaros terem os seus ninhos, mas Ele mesmo não ter onde reclinar a cabeça. Jesus abriu mão de tudo para valorizar e amar a todos a ponto de aceitar a Sua própria morte na cruz. Para Jesus o que importava eram vidas salvas e transformadas pelo poder do evangelho. Mas, para nós o que realmente importa? Valorizamos o "mundo humano" ou o "mundo das coisas"? Se tivermos o mesmo sentimento de Cristo poderemos dizer como o apóstolo Paulo: "já aprendi a contentar-me com o que tenho". Com o mesmo sentimento de Cristo o "mundo humano" terá muito mais sentido do que o "mundo das coisas". Mas será que estamos tendo o mesmo sentimento de Cristo Jesus? O que está ditando os nossos valores? Onde está realmente o desejo do nosso coração?

Para valorizarmos o "mundo humano" sem sermos humanistas, sem colocarmos o Homem no centro, precisamos aprender a nos desligar mais das coisas que são da terra e buscar, pensar e amar mais as "coisas que são de cima" (Colossenses 3:1,2). Os valores do Alto nos tornam mais sensíveis, mais humanos, mais empáticos, mais amorosos, calorosos e fervorosos, com uma visão que transcende a necessidade ou a urgência do momento. As coisas da terra nos dão a mentalidade da terra e apenas para a terra, mas os valores do Alto nos dão discernimento para uma vida muito mais ampla e completa e que se completa tanto em Cristo como no ser humano. Portanto, que possamos abrir o nosso coração para o Alto e, assim, veremos que o importante não são as coisas, mas, a importância de cada um, o valor de cada pessoa, o tesouro de cada vida.


Pr. Adriano Xavier Machado

Cuidando da "melancia" do meu próximo

Neste momento estou em viagem. Estou indo passar algumas semanas no Rio de Janeiro. Enquanto isso fiquei pensando o que poderia escrever, a fim de trazer algo encorajador para o leitor. Não demorou muito e cheguei a seguinte conclusão: o que é importante para mim, pode não ser para você. O contrário também é verdadeiro. Cada pessoa tem o seu gosto, o seu interesse, a sua necessidade e a sua própria expectativa. Lembro-me de ter visitado uma família no interior do Estado de São Paulo. Logo tomei conhecimento de que haviam roubado a melancia mais bonita do sítio. Por isso, pairava no ar um sentimento de tristeza. Confesso que no início não consegui entender a razão de tudo aquilo. Será que uma melancia merecia tanto envolvimento emocional? Se fosse um aparelho de televisão, um computador ou ainda um carro eu até entenderia de imediato a frustração daquela família, mas ficar triste por causa de uma simples melancia parecia muito para mim. Aí está, não era uma simples melancia. Antes era o fruto de um trabalho, de uma semeadura, de um investimento, de uma espera e até de um desejo projetado durante dias, semanas e meses. A melancia que fora roubada era muito mais do que casca, polpa avermelhada e sementes, mas, a representação de uma recompensa da vida e do labor do campo. Pode parecer estranho, mas todos nós temos também as nossas "melancias", aquilo que para nós possui algum significado psicológico, alguma relevância histórica, alguma recompensa do nosso trabalho. Mas geralmente apreciamos as nossas "melancias" e desprezamos as dos outros. Valorizamos as nossas coisas e ignoramos as dos outros. E assim vemos muita defraudação, muitas injustiças, muitos descasos, erros e pecados contra o próximo. Estamos tão centrados no nosso próprio universo que poucas vezes conseguimos perceber a beleza, a riqueza e o brilho do universo do outro. Fazemos vista grossa, damos de ombros e até lavamos as nossas mãos quando se trata das "melancias" de terceiros. Mas a Palavra de Deus nos traz um desafio: "Não sejam egoístas... Não pensem unicamente em seus próprios interesses, mas preocupem-se também com os outros e com o que estão fazendo" (Filipenses 2:3,4 - NTV). E isso significa reconhecer que a "melancia" do próximo também é valiosa e saborosa, bonita e significativa. Cuide bem do que é seu, mas cuide bem também o que é do outro. A "melancia" do nosso próximo é tão importante quanto a nossa. Que Deus nos ajude a viver o verdadeiro amor.

Pr. Adriano Xavier Machado

Ted Williams: uma parábola contemporânea

A história já é conhecida. É notícia no mundo inteiro. O americano Ted Williams literalmente teve "a segunda chance". Por dez anos como morador de rua, de uma hora para outra tornou-se celebridade. O que o fez sair daquela miséria? Um jornalista passava com o seu carro em uma avenida de Columbus, capital do Estado de Ohio, quando o encontrou mendigando com um simples cartaz com os seguintes dizeres: "Eu tenho o dom divino de uma grande voz. Sou um ex-locutor de rádio que caiu em desgraça. Por favor, qualquer ajuda será bem-vinda". A partir daí, a vida de Williams foi transformada. Sua história se tornou conhecida por todos os Estados Unidos, recebendo a oportunidade de recomeçar a sua vida como um grande locutor.

Há muita coisa que podemos aprender com esse fato. Ted
Williams representa o nosso fracasso, o nosso buraco, a nossa miséria. Quem nunca caiu? Quem nunca se sentiu derrotado? Quem nunca sofreu como mendigo espiritual? Davi teve essa experiência: "Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim". E essa é também a experiência de todo ser humano. No entanto, não precisamos desistir. Williams não desistiu. Ele preparou um cartaz que confessava três coisas importantes: o dom divino, a sua desgraça e o desejo de ajuda.
Para sairmos da nossa miséria espiritual precisamos fazer uma confissão. Davi teve o seu fracasso, mas não deixou de confessar: "Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que a teus olhos é mal". Nós igualmente precisamos recorrer a esse procedimento. Pois, se "confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça". Em outra parte das Escrituras encontramos: "O que encobre as suas transgressões nunca prosperará; mas o que as confessa e deixa alcançará misericórdia".

Todavia, o que devemos confessar? Ted Williams reconheceu o seguinte dom divino que tinha recebido: "uma grande voz". Davi reconheceu um outro dom divino: a Sua "misericórdia" e "benignidade". Muitas vezes nós não nos aproximamos de Deus com ousadia, porque não temos confiança no Seu amor e na Sua bondade. Sem essa confiança ficamos acomodados, aceitando passivamente toda a nossa tristeza, angústia e derrota.

Ted Williams prosseguiu em sua confissão:
"Sou um ex-locutor de rádio que caiu em desgraça". Isso nos faz lembrar a parábola do filho pródigo quando diz: "caindo em si". O filho pródigo reconheceu a sua miséria, a sua rebeldia e o seu pecado. Davi em sua confissão teve a mesma atitude: "crimes de sangue". Quais reconhecimentos precisamos ter? Quais pecados precisamos confessar? Quais são as nossas desgraças morais, éticas ou espirituais que precisamos expor diante do altar de Deus?

Por fim, Ted Williams desejava alguma "ajuda". Ele estava aberto para ser socorrido. Já ouvi dizer que muitos moradores de rua preferem ficar como estão. No entanto, Williams reconhecia:
"qualquer ajuda será bem-vinda". Ele não era orgulhoso nem estava satisfeito com a vida que levava. Logo, ele recebeu uma maravilhosa oportunidade. Tornou-se uma celebridade. Teve a chance de recomeçar a vida. Provavelmente ele não esperava por tanto. Mas é sempre assim que funciona: Deus faz "abundantemente além daquilo que pedimos ou pensamos". A Ele toda honra e glória, pois através de Sua misericórdia e benignidade Ele nos dá mais uma chance para recomeçar. De mendigos Ele quer nos fazer príncipes. Ele deseja nos tirar da miséria espiritual para a extraordinária riqueza da Sua graça.

Pr. Adriano Xavier Machado

Sem exagero material, sem exagero espiritual


A ciência muitas vezes tem procurado ver o ser humano apenas nos limites da matéria. Podemos dizer que seria o exagero material, pois nessa perspectiva não há espaço para aquilo que não possa ser estudado e provado nos laboratórios. Nós como cristãos, por outro lado, reconhecemos que a existência do ser humano só é possível com a sua espiritualidade. Contudo, tal como alguns materialistas, às vezes acabamos tendo uma inclinação um tanto que exagerada e tendenciosa em nossas concepções, sendo que no nosso caso no aspecto teológico, a ponto de praticamente negarmos tudo aquilo que esteja na dimensão terrena, como se fosse mal, pecaminoso e sujo. Assim vemos certos crentes com receio de qualquer abordagem que remeta ao terreno, quer seja sexual, financeiro, físico, cultural, artístico, filosófico, sociológico, intelectual ou acadêmico. Provavelmente foi por isso que Rousseau chegou a conclusão de que o "cristianismo é uma religião inteiramente espiritual, preocupada unicamente com as coisas do céu, não pertencendo a pátria do cristão a este mundo". Que é verdade que a nossa pátria não é deste mundo, Rousseau tem toda razão, mas preocupada unicamente com as coisas do céu, sem dúvida, é uma percepção errada da fé cristã. Ele chegou a dizer que para o cristianismo pouco "importa se tudo vai bem ou mal cá embaixo". O que biblicamente falando não é verdadeiro.

O evangelho de Cristo jamais nos conduz a uma dimensão de indiferença para com o que acontece "cá embaixo".  É claro também que o nosso tesouro está no Céu e que a solução para transformar o mundo está no poder do evangelho de Jesus, porém não podemos pensar que a vida terrena seja uma maldição e que por isso não devemos nos importar ou nos interessar pelas coisas desta vida. Lembro-me que quando estava para fazer a faculdade um irmão na fé viu a minha iniciativa com certa dúvida, como se eu estivesse sendo carnal. Aos seus olhos, como ministro do evangelho, eu deveria estudar a Bíblia ou ler livros religiosos e me afastar de qualquer estudo ou atividades que não fossem religiosas, pois de outro modo o meu ministério estaria correndo o risco de ser corrompido. Com certeza, a nossa força e sabedoria na realização da obra de Deus não se encontram em nós mesmos ou em mecanismos meramente humanos, mas no poder e na sabedoria de Deus. Sinceramente eu creio que precisamos desenvolver uma vida de dependência de Deus através do estudo de Sua Palavra e orações incessantes. Mesmo porque a nossa luta não é contra carne ou sangue e, sim, contra as forças espirituais da maldade. Mas isso não significa que temos que ser negligentes quanto aos nossos deveres terrenos. Estamos no mundo como mordomos de Cristo. Portanto, devemos sempre fazer o melhor em tudo para a glória de Deus, seja no espaço eclesiástico, mas também doméstico, profissional, estudantil, desportivo, cívico ou em qualquer outro lugar onde Deus nos colocar. O exagero material nos leva ao ceticismo espiritual, mas, decerto, o exagero espiritual nos leva a uma terrível e trágica alienação social, tal qual os cristãos tessalonicenses que não queriam mais trabalhar porque aguardavam a segunda vinda do Senhor.

Por algum motivo, em certa época da História, a Igreja fez a divisão entre o sacro e o secular. Como se nós tivéssemos dois tipos de vida: uma com Deus e outra no mundo. Nesse tipo de mentalidade a vida com Deus é expressa com liturgias, cultos, estudos bíblicos, evangelização etc. A vida com os homens se expressa no lar, no trabalho, nos estudos, enfim, em atividades que não possuem objetivamente cunho religioso. Esse tipo de entendimento geralmente leva a pessoa a ter um sentimento de culpa quando se está envolvida com alguma atividade que não seja especificamente religiosa. No entanto, precisamos absorver de fato que a vida com Deus se expressa tanto com os motivos religiosos como também com os pormenores do quotidiano. Gostei muito da colocação de Cecil Osborne: "Com Deus, não há categorias, tais como ciência e religião, o sagrado e o profano". Com Deus tudo é santo. Mesmo porque uma vez que estamos unidos a Ele pela fé em Cristo, não iremos fazer o que é contrário ao Seu caráter santo. Por conseguinte, podemos dizer que a vida cristã é uma perfeita harmonia entre o espiritual e o terreno, um maravilhoso equilíbrio com os privilégios do Céu, mas também com os deveres da terra. O exagero espiritual é sinal de ansiedade religiosa, uma espécie de inquietação que não consegue descansar nas promessas e na própria graça de Deus. Não existe problema algum em o crente estudar, trabalhar, casar, cuidar da casa, cortar grama, varrer o quintal, enfim, ter uma vida natural. Com Deus o natural é também espiritual. Com Deus até mesmo as coisas mais simples da vida são modos de adoração e louvor a Deus. Com Deus, como reconhece Osborne, "todo aspecto da vida é sagrado". Só para lembrarmos rapidamente, Billy Graham formou-se em Antropologia e foi poderosamente usado por Deus como um grande evangelista internacional. Philip Yancey se formou em Jornalismo e Deus o tem usado como um excelente escritor evangélico. David Livingstone era formado em medicina e Deus o usou extraordinariamente como missionário na África. George Washington Carver foi usado por Deus como um brilhante cientista. E Deus tem usado muitos outros de diversas formas, de muitas maneiras. 
"Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (I Coríntios 10:31).

Pr. Adriano Xavier Machado

2011

Fogos de artifício iluminando e colorindo os céus das cidades. Abraços, sorrisos, saudações e músicas marcando a passagem de mais um novo ano. 2011 chegou. É como se estivéssemos diante de mais um amanhecer: o sol vai se levantando lenta e suavemente com muitas promessas. E o nosso coração se regozija com a possibilidade de sonhos e desejos realizados. Mas, apesar de todo brilho, expectativas e projetos estabelecidos, devemos lembrar: "As pessoas podem fazer os seus planos, porém é o SENHOR Deus quem dá a última palavra" (Provérbios 16:1). Assim é porquanto Deus sabe o que é melhor para nós. Nem tudo o que pensamos e queremos é na verdade o melhor. E Ele como o nosso amado Pai "que está no céu, dará coisas boas" aos seus filhos (Mateus 7:11). Por isso o apóstolo Paulo compreendia que a vontade de Deus é boa, perfeita e agradável (Romanos 12:2). Portanto, não precisamos ter medo em confiar a Deus tudo aquilo que está no nosso coração. Por Ele saber o que é o melhor, Ele sempre fará o melhor por nós.

Quando olho para o ano que passou, chego a conclusão de que no Senhor tive muitas vitórias. Estou sinceramente agradecido por tudo o que Ele fez. O Senhor me cercou com a Sua fidelidade. E por saber que em Deus não há sombra de variação, por saber que Ele sempre é o mesmo, por saber que Ele me ama continuamente e a Sua misericórdia não tem fim, posso aceitar tranquilamente a Sua "última palavra". No despertar de um novo ano tenho os meus planos. Como um ser que pensa e sonha tenho os meus projetos. Mas eu sei em quem tenho crido, sei quem é o meu Senhor, Ele é sempre o Deus de amor que "dá a última palavra" no perfeito e supremo amor. Então, entrego o meu caminho ao Senhor, confiando que Ele fará o melhor. Nessa confiança prossigo. Nessa esperança deixo o seguinte testemunho das Escrituras: "Peça a Deus que abençoe os seus planos, e eles darão certo" (Provérbios 16:3). "O Senhor Deus é bom. Em tempos difíceis, ele salva o seu povo e cuida dos que procuram a sua proteção" (Naum 1:7). "Lembre de Deus em tudo o que você fizer, e ele lhe mostrará o caminho certo" (Provérbios 3:6).

Pr. Adriano Xavier Machado